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Ah… o amor

Ah… o amor

Se tem algo que descreve bem os nossos desejos e encontros amorosos é o poema Quadrilha de Drummond: todo mundo ama alguém que não se encontra e no final quem fica com o outro é alguém que nem tinha feito parte da história. O amor tem dessas coisas: encontros e desencontros. Acontece também quando não se pede e não se recebe em troca. Quando não se pede, receber de graça é quase uma ofensa: um amor que não quero, um amor que não pedi. Como enche o saco quem ama a gente e a gente não ama! Mas se não der pra amar, tem gente que consola com sexo. Com isso a gente vai transando mais que amando. É mais fácil, não tem que sofrer, e como diz outro poeta, “os corpos sempre se entendem, as almas não”. Porque o amor é isto: encontro e desencontro, é dor, embora a gente não queira se doer, nem se desencontrar. A gente nem sabe porque ama, não sabe nem direito o que é amor. Camões diz que ele “nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê”. E dói, como dói. Quem nunca se doeu todo por amor? E de tanto se doer muitos desistiram de amar, passam longe dessa coisa que de suave, romântica e poética às vezes nada tem. O amor nos chacoalha, nos vira do avesso, nos faz grandes, apequenados, a depender do objeto amado. Inevitável, amor é isso; ninguém lhe escapa. Ele chega tão cedo, na meninice a gente já ama, já quer bem, já enamora, já quer ficar junto de alguém. Assim, junto pra não largar mais. O amor parece ser tanta coisa boa, mas é tanta coisa ruim. De tão bom que é, chega enlouquecer, chega matar. E depois disso a gente promete a si mesmo que nunca mais volta a amar. Que nada! Ele vem mais de uma vez, até de repente e até demora a ir embora. Enquanto isso, a dor fica. É, é que ele nem sempre é correspondido e a gente fica naquela insistência de amar. Amor não correspondido quase nem é amor. E é o que? É nada. Amor não correspondido é dor solitária, despercebida, quase inexistente, apequena a gente. Vai diminuindo, diminuindo, até que a gente se torna um nada. E a gente tenta ser forte, mas o amor é grande, vai se agigantando. De tão grande, às vezes é ódio. Amor e ódio andam lado a lado. A gente é assim: se não pode amar, que reservado lhe seja o ódio. O ódio entra como uma alternativa cínica, quase inevitável, de manter a pessoa no coração punindo-lhe por não corresponder ao amor oferecido. Onde já se viu, não aceitar coisa tão da gente, tão grande, tão forte? Se não quer, tem quem queira! Amor tem disso: é tudo ou nada. Não dá para amar mais ou menos. Não dá para amar depois. A gente quer agora e quer que seja intenso. A gente não consegue mensurar o que ele é, mas sente o que ele causa. Ao final da vida, a gente entende que o amor em via de mão dupla é para poucos, artigo de luxo. No geral, a gente passa a vida toda amando, num eterno jogo de dança de cadeiras, ou como na quadrilha de Drummond mesmo e, por fim, quem leva a boa é quem nem tinha feito parte da história.

Júnior Tomaz de Souza é psicólogo, formado em Direito, mestrando em Educação pela UEMS e servidor público na mesma instituição. Atualmente, é pesquisador de temas ligados aos direitos humanos, diversidade, violência e sexualidade. É diretor de projetos do Coletivo de Direitos Humanos e Diversidade Sexual Universitário do Município de Paranaíba (Diversas)


Pablo Nogueira

Pablo Nogueira

Jornalista, fotógrafo, editor chefe do portal InterativoMS e apaixonado por inovação e política.

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