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Paranaíba - MS,

Vamos falar de crise?

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Última Atualização: 04/4/2016 09:01:51
Júnior Tomaz de Souza

Em todo lugar o assunto do momento tem girado em torno da crise, seja nos espaços mais sofisticados de construção de idéias – como a universidade e a mídia jornalística – seja naquelas conversas informais entre amigos na mesa do bar. Todo mundo só fala nisso. Mas o que mais me chama a atenção nem é tanto essa espetacularização da crise, mas que, como sempre, temos discutido as coisas no plano isolado, superficial, sem ir à raiz e sem relacionar o tema com outras questões laterais.

Estamos mesmo falando de crise? Ok. Que crise? O que é crise para cada um? Pelo que se entende na tônica dos discursos, crise é quando estamos diante de uma conjuntura de problemas oriundos de demissões em massa, falta de investimentos, quando ninguém consegue comprar ou vender nada porque os preços estão descontrolados. Ok. Combinamos então que crise é caos, é desordem, é prejuízo. Então crise é isso? É um mundo disfuncional, descontrolado, que não está a favor dos governos, dos empresários ou dos consumidores? Se sim, pergunto: quando foi que o mundo não esteve em crise? A palavra crise nunca me assustou tanto porque desde criança ouço meus pais e avós reclamarem “as coisas não estão fáceis”. Por esta razão, não importa tanto para mim, constatarmos que estamos em crise, mas a quem a crise mais castiga e como sairmos dela.

Ademais, precisamos parar de pensar em crise apenas na economia. Se crise diz respeito a um mundo disfuncional, é preciso reconhecer com honestidade e maturidade que esse cenário é comum há anos para muitas pessoas. Fala-se em crise justificando que esta tem consequências na vida das pessoas; que a forma como o mercado se comporta se reflete na vida dos cidadãos, já que todas as nossas relações são permeadas por relações econômicas. Em parte isso é verdade. Mas será que uma suposta crise econômica revela apenas que o governo fracassou ou que o mercado está se comportando desta ou daquela forma? Será que uma suposta crise econômica não revela os pontos frágeis do capitalismo enquanto sistema?

E já que é para falarmos de crise, e a crise social? Que visibilidade a mídia tem dado a ela? Por que alguns empresários e a oposição política não exploram esse tema lateral? Por que não se fala na crise dos direitos humanos como um todo, que é geral e histórica no mundo? Fala-se de crise econômica ora com base na tal inflação que fecha em 1% a mais que no mês anterior, ora com base na queda da bolsa que foi de 2 para 5%, ou com base no fato dos empresários decidirem investir no Brasil apenas se Dilma cair. Que crise é essa? Como levar a sério a tônica de um debate sobre crise que se diz econômica sendo que está combinada com crise política e social em desfavor dos pobres? Como levar a sério uma suposta crise econômica que se alimenta de um sistema financeiro especulativo? Quem ganha com esse discurso de crise?

Vamos falar de crise? Então tá. Falemos da crise dos que não comem. Os pobres conhecem muito bem dessa crise. Ela sempre existiu, mesmo quando a TV diz que o mercado está bom para os investidores. Os nordestinos sabem o que é crise: crise da seca, crise da fome, crise do preconceito e do analfabetismo, crise da falta de médicos. Os haitianos no Brasil também: crise da xenofobia, crise diplomática, crise dos genocídios, crise do terrorismo, crise religiosa, crise étnica, crise da imigração. Os negros sabem o que é crise: crise da escravidão do corpo e da alma, crise do racismo, crise do sistema penitenciário, crise da violência policial. Quando foi que o mundo não esteve em crise para as mulheres, os pretos, os pobres, as pessoas com deficiência, as populações indígenas, os homossexuais, os idosos, os trabalhadores subalternizados, para as nações colonizadas? E as consequências disso tudo na vida social?

Júnior Tomaz de Souza é psicólogo, formado em Direito, mestrando em Educação pela UEMS e servidor público na mesma instituição. Atualmente, é pesquisador de temas ligados aos direitos humanos, diversidade, violência e sexualidade. É diretor de projetos do Coletivo de Direitos Humanos e Diversidade Sexual Universitário do Município de Paranaíba (Diversas)
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